sábado, 25 de julho de 2020

KP#10 Terras Brancas


Arte: Ivo Milazzo
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.

Confira a trilha sonora de Ken Parker

Review — Ken Parker "Terras Brancas" (Editora Vechi/Tendência). Roteiro: Giancarlo Berardi — Desenhos: Bruno Marrafa. Publicada originalmente no Brasil em julho de 1979/Editora Vecchi 

Arte: Bruno Marrafa
Um aspecto interessante nesses primeiros 10 episódios de Ken Parker: Rifle Comprido já esteve em ambientes diversos — montanhas, grandes cidades e pequenas vilas; confontou agrúrias do alto-mar; enfrentou adversidades com a neve e o frio extremo; atravessou desertos; combateu e conviveu com tribos indígenas; conhecemos com ele o cotidiano de fortes militares, etc. E agora Ken está isolado no Círculo Ártico em busca de sobrevivência. Ao lado dele, os parcos representantes do naufrágio do New England próximo ao estreito de Bering — o casal Owen e Laura Chase, além de seu anjo-da-guarda, o sábio Nanuk, um índio esquimó que se aventura como marinheiro.

Arte: Bruno Marrafa
A estreia do desenhista Bruno Marrafa acontece em grande forma, apresentando armas em seu estilo com traço mais encorpado no contorno externo. Por outro lado, buscando equiíbrio nessas composições, Marrafa alterna uma linha mais delicada no interior das ilustrações — o resultado é uma arte com a marca de sua originalidade. “Terras brancas”, uma história de luta pela sobrevivência do primeiro ao último quadro. As possibilidades de encontrarem alimento escasseiam, assim, a sombra da inanição é um temor permanente que passo a passo começa a exaurir as forças do quarteto.

Arte: Bruno Marrafa
Ressurge a lembrança de "Vivos" (1993), de Frank Marshall, filme que detalha o acidente aéreo que envolveu uma equipe uruguaia de rugby durante o vôo 571 da Força Aérea do Uruguai nas montanhas dos Andes ocorrido em 1972. Apenas quatro personagens segurando a trama, com Nanuk a protagonizar e liderar a busca pela comida em cada filigrana de vida. Os desenhos das blizzard, as grandes tempestades de neve são devastadoras. A Fábula do corvo relembra as representações lúdicas de “Chemako”, resgatando um conto esquimó sobre a criação da humanidade pelo Corvo Negro, relato de Nanuk sobre sua descrença na gênese cristã e na mitologia do homem branco.

Arte: Bruno Marrafa
Tanto o senso de humor quanto a grandeza da simplicidade de Nanuk são desconcertantes. Seus pontos de vista, alinhados à cultura de suas origens, invariavelmente nos fazem questionar nossa própria forma de viver. Entre seus grandes momentos em “Terras Brancas”, é inevitável nossa estupefação ao vermos orquestrar a construção de um iglu e um incrível túnel de acesso para proteger o grupo do frio.

Arte: Bruno Marrafa
Esse é um dos grandes ingredientes da obra de Giancarlo Berardi — há um extremo cuidado em descrever a cultura indigenista. O roteirista não economiza na riqueza de detalhes, contextualizando os costumes onde, naquele momento, os personagens estão inseridos, percutindo um profundo respeito pelo leitor do quadrinho popular. A vilania da trama está a cargo do Capitão Chase, desgovernado em sua luta pela sobrevivência e com a vertiginosa insanidade de sua esposa. Os devaneios de Laura consternam seu marido, que muitas vezes responde seus apelos com frieza e desatenção, enquanto os esforços de Ken e Nanuk para ajudá-la são a tábua de salvação da agonizante Laura.
 
Arte: Bruno Marrafa
Na página 65, devido ao excesso de claridade e à conta do tom monocromático da neve, Nanuk perde temporariamente a visão. Esse é um mal conhecido pelos índios inuítes, anteriormente conhecidos como esquimós, povos do Ártico, para impedir a cegueira da neve. Os óculos de proteção são tradicionalmente feitos de madeira flutuante (petrificada e trazida nas correntezas marítimas, especialmente abeto), ossos, marfim de morsa, chifre de caribu, ou, em alguns casos, capim costeiro. As fendas são estreitas não apenas para reduzir a quantidade de luz que entra, mas também para melhorar a acuidade visual. Quanto maior a largura das fendas, mais amplo é o campo de visão. Sem ter utilizado uma proteção como a narrada acima, como paliativo e guiado por Ken, Nanuk fica o restante de "Terras Brancas" com os olhos vendados.  .

Arte: Bruno Marrafa
Assim, no epílogo dessa cronologia, novamente Ken Parker assume seu protagonismo e os conduz ao apogeu do episódio — a caçada ao urso branco. Nesse ambiente totalmente inóspito, a humanidade dos personagens ultrapassa os desafios pela sobrevivência. Há como ter piedade de um animal? “Terras Brancas” busca artifícios na atemporalidade, uma dos selos de qualidade da obra de Berardi/Milazzo, e essa é a linha limítrofe que demarca a metade da jornada de Ken no Polo Norte. No número seguinte, nosso herói fará um mergulho ainda mais profundo na cultura esquimó.

Próximo episódio: A Nação dos Homens.

Arte: Bruno Marrafa
    

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A saga de Rifle Comprido contada pelo Blog

Ken Parker Blog retorna à atividade