quinta-feira, 6 de agosto de 2020

KP#22 Incêndio em Chattanooga

Arte: Ivo Milazzo
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.


Review — Ken Parker "Incêncio em Chattanooga" (Vecchi/Tendência). Roteiro: Giancarlo Berardi e Maurizio Mantero — Desenhos: Giancarlo Alessandrini. Publicada originalmente no Brasil em Agosto de 1980/Editora Vecchi 
Arte: Giancarlo Alessandrini
Ken Parker e Victorio, exploradores civis em Fort Sill, chegam a Chattanooga, no Tennessee, onde o exército negocia uma nova tropa de cavalos. Durante a estada na cidade, após um assalto num armázem, uma grande explosão deflagra um incêndio de grandes proporções. Enquanto os bombeiros e a cidade se mobilizam para controlar o incêndio, os bandidos roubam o banco local. Após serem descobertos, eles se refugiam numa escola, tomando a professora e os jovens alunos como reféns. Em troca de suas vidas, o chefe do bando solicita cavalos selados e um trem exclusivo para a fuga, além de US$80 mil de resgate.   

Arte: Giancarlo Alessandrini
Baseado no argumento de Giancarlo Berardi, pela primeira vez Maurizio Mantero dirige um roteiro de Ken Parker. Giancarlo Alessandrini é o responsável pelas imagens, e novamente não nos decepciona, pelo contrário — “Incêndio em Chattanooga” é seu ápice inicial como desenhista substituto de Ivo Milazzo. É incrível a habilidade de síntese ao viabilizar um plano geral do início do conflito da trama, como visionamos nas páginas 30 e 31 (tomando por base a publicação da Editora Vecchi).  

Arte: Giancarlo Alessandrini
A história repassa diversas mazelas daquele período (e todos ainda pertinentes):  direito das mulheres, preconceito racial depredação da natureza, genocídio dos indígenas, além de um tema que infelizmente está em maior evidência — interesses econômicos sobrepondo a importância de vidas humanas. A temática racial é um tema recorrente em Ken Parker, revelando o quanto a humanidade pensa, acredita e reafirma esse sentimento brutal de exclusão em nome da cor da pele. Quando o proprietário de um restaurante nega a Victorio o direito de almoçar entre a equipe de Forte Sill, sensibilizado, Ken se voluntaria em fazer a refeição ao lado do indígena na cozinha do estabelecimento. Ainda nessa esteira de abordagem a flagelos permanentes da sociedade, em “Incêndio em Chattanooga” os poderosos da cidade, representados pelos executivos da Harper & Russell, não escondem o protecionismo pelo topo da cadeia monetária local — simbolizado na exagerada salvaguarda ao sistema bancário. 

Arte: Giancarlo Alessandrini
A troco desse sentimento, figura o desamparo de um pequeno fazendeiro e sua incapacidade de reconstrução frente ao sistema financeiro excludente, e a consequente consternação frente o eminente perigo de um filho sequestrado. É incrível como tantas outras questões são introduzidas em breves recortes numa sucessão de ‘figurantes’. Assim, Berardi/Mantero demonstram uma invejável capacidade de abordar com profundidade uma série de personagens que atuam brevemente ao longo das 100 páginas desse episódio, histórias conectadas paralelamente ao enredo principal, mas com início meio e fim. 

Arte: Giancarlo Alessandrini
Por mais execrável que seja a personalidade do fotógrafo racista ao registrar rostos ilustres e parte do conflito em "Incêndio em Chattanooga", Berardi/Mantero relembram um importantíssimo personagem da história norte-americana. Durante a segunda metade dos anos 1800, o processo fotográfico utilizava o ambrótipo, uma variação do colódio úmido, processo inventado em 1850 e que dominou todo o processo fotográfico até o final daquele século. A imagem surge invertida no visor (como vemos na página 15), exemplo desse método de captação finalizado em chapas de vidro. Relembramos novamente "Enterrem meu coração na curva do rio", livro de Dee Brown, um perfeito exemplo dessa documentação. Uma fração significativa das fotos que ilustram a publicação utilizam o ambrótipo (colódio úmido), e foi através da iniciativa de profissionais como Edward Curtis e Mathew Brady, que inúmeras imagens históricas foram registradas, com boa parte desse material arquivado junto ao Smithsonian Institution, em Washington. 

Próximo episódio: A Rainha do Missouri 
Arte: Giancarlo Alessandrini

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