quinta-feira, 27 de agosto de 2020

#KP 32 A Lenda do General

Arte: Ivo Milazzo
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.

Review — Ken Parker "A Lenda do General" (Vecchi /Tendência). Argumento: Giancarlo Berardi /  Roteiro: Maurizio Mantero — Desenhos: Carlos Ambrosini e Ivo Milazzo. Publicada originalmente no Brasil em Junho de 1981/Editora Vecchi
Arte: Carlos Ambrosini
Devido a um erro burocrático, Ken Parker, designado como batedor-Chefe do 7º Regimento da Cavalaria, se apresenta três semanas atrasado em Forte Lincoln. Desse modo, a tropa parte sem o líder dos scouts rumo a Rosebud, Condado de Little Big Horn, no Montana, com objetivo de exterminar os últimos rebeldes indígenas insurgentes à destituição de suas terras. Encurtando o caminho via Rio Missouri, Ken embarca às pressas no Morning Star, na expectativa de alcançar o mais rápido possível o regimento comandado pelo polêmico General Custer. 
Arte: Carlos Ambrosini
"A Lenda do General" se debruça sobre um dos eventos mais emblemáticos, e uma das mais significativas derrotas do exército norte-americano no Século XIX — a batalha de Little Big Horn. Brilha no episódio a mítica que paira sobre o ocaso do George Armstrong Custer, um militar que construiu sua reputação durante a Guerra Civil, com destacadas vitórias à frente do exército yankee, como no lendário embate em Gettysburgh, além de sua atuação na Campanha de Appomattox — Custer estava presente quando o general Robert E. Lee se rendeu para Ulysses S. Grant, em 9 de abril de 1865. Imprudente, dramático, infatigável, vaidoso — amado pelo povo, temido pelos seus comandados, invejado pelos oficiais, Custer liderou suas tropas e se tornou um dos principais guerrilheiros do exército no embate contra os índios.   

Arte: Carlos Ambrosini
Durante o recorte de tempo em que está situado "A Lenda do General", o General Custer (que na verdade era Tenente-Coronel) tinha 36 anos, e era conhecido entre os índios como Pahuska (Cabelos Longos) ou Traseiro-Duro, apelido conquistado devido a estrema resistência em cavalgar durante horas, uma de suas decantadas qualidades nas perseguições aos índios. Aos interessados pelo tema, uma das melhores dramatizações a explorar os dias finais de Custer certamente está registrada em "Son of the Morning Star/Filho da estrela nascente" (1991), minissérie norte-americana de TV baseada no livro homônimo de Evan S. Connell. Assista AQUI. Em publicações — e pelo ponto de vista dos vencedores — o embate mais dramático do 7º Regimento está extraordinariamente narrado no capítulo 10 de “Enterrem meu coração na curva do rio”, livro de Dee Brown. Apenas dois anos antes de sua morte, George Custer ainda lançou uma autobiografia, “My Life On The Plains” (1974), livro que auxiliou a amplificar a sua fama como estrategista militar. 

Arte: Carlos Ambrosini
Em “A Lenda do General”, Beradi/Mantero exploram as dualidades da personalidade do oficial, quando ao longo da jornada rumo à Little Big Horn, Ken Parker ouve diversas narrativas que enquadram o oficial em dezenas de personalidades, com todas as virtudes e defeitos que um homem pode ter. A bordo do Morning Star, Ken ainda conhece Monahseeta, uma squaw cheyenne e seu filho, Andorinha Amarela. Numa viagem tensa e perigosa,, Ken resguarda mãe e filho das injúrias e acusações de sabotagem, que na condição de clandestinos, também rumam até o local onde as tropas do General Custer estão posicionadas. Monahseeta é uma das poucas sobreviventes do massacre dos Washita, sanguinária missão executada pelas tropas de Custer. 

Arte: Ivo Milazzo
Essa dramatização é recontada na página 64 (tomando por base a edição da Editora Vecchi), quando ao som de "Garry Owen", Custer dizima uma aldeia indígena. O tema militar é uma adaptação de uma fanfarra folclórica irlandesa (ele realmente fazia isso: pedia para o clarinetista tocar o seu hino particular antes de partir para a batalha). Uma curiosidade — inspirado nesse episódio histórico, "Cavalgada da Valquírias", de Richard Wagner, foi escolhida por Francis Ford Coppola como música de batalha do Tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) em "Apocalipse Now" (1979) — “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, diz o oficial após um bombardeio. 

Arte: Ivo Milazzo
Na verdade, em “Lenda do General”, o encontro com o 7º Regimento é apenas um pano de fundo para contar a história de Monahseeta, além do retrospecto dos feitos e crueldades de Custer. Entre as temáticas paralelas narradas durante o percurso, novamente presenciamos a relação próxima de Ken com as crianças, já que ele naturalmente conquista a confiança de Andorinha Amarela, seja em simples demonstrações de carinho, quanto nos ensinamentos de uma caçada. A relação afetiva entre os índios e a natureza também é relembrada na necessidade da doma de um cavalo selvagem, quando Monaseetah entoa uma melodia indígena para acalmar o animal. Entre as lendas que circundam a persona de Pahuska, há relatos de que ele teria tido uma filha com Meodsy, uma das sobreviventes no Massacre de Washita, e o nome da criança seria Yellow Bird (ela morreu antes de completar um ano). Berardi/Mantero novamente buscam inspiração nas biografias para recriar seus personagens.        

Arte: Ivo Milazzo
Como todos sabemos, a missão de Custer estava fadada a fatídica derrota, numa equivocada liderança impulsionada por uma mistura de soberba, estupidez e excesso de confiança. Cerca 10 mil índios estavam acampados na foz do Rio Powder, a circundarem a utopia de transformar esse agrupamento na tão sonhada Nação Independente. Reza a lenda que o acampamento se estendia por cerca de 5 quilômetros, tornando praticamente impossível uma simples contagem do número de tendas. Entre as tribos lá estavam agrupados cheyenne, brulés, sioux blackfoot, minneconjou, arapaho, hunkpapa, ogdala, entre outras, numa rara união de forças que faria toda a diferença. Entre os chefes, nomes maiúsculos daquele período comandavam as ações — Touro Sentado, Duas Luas, Cavalo-Louco, Galha, Águia Abatida, líderes absolutos à frente de cerca de quatro mil guerreiros. 
Arte: Ivo Milazzo

“A Lenda do General” também discute o momento exato e questiona o protagonismo da morte do General Custer. Em “Enterrem meu coração na curva do rio” há vários relatos e argumentações. Um chefe sioux black foot disse que o movimento dos índios na direção da coluna de Custer foi como um furacão, como abelhas saindo de uma colmeia. A fumaça dos tiros e a poeira dos cavalos encobria o morro, relatou uma testemunha. Entre os que afirmaram ter matado Custer estavam Chuva-no-Rosto, Quadril Chato, Urso Bravo e Touro-Branco. 

"A Lenda do General" ainda demarca a tão anunciada despedida de Ken Parker das fileiras dos scouts do exército — "Depois disso, seu povo não tem mais saída. Mas não assistirei à sua agonia... Eu encerro com essa guerra sórdida", confessa Ken a Monahseeta nos momentos finais da história desenhada a quatro mãos por Carlos Ambrosini e Ivo Milazzo. O agora ex-scout está prestes a vivenciar uma das grandes epifanias da sua vida — a literatura!

Próximo episódio: "Milady".

     
Arte: Ivo Milazzo


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