segunda-feira, 17 de agosto de 2020

KP#29 O Magnífico Pistoleiro

Arte: Ivo Milazzo
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.

Review — Ken Parker "O Maginífico Pistoleiro" (Vecchi /Tendência). Argumento: Giancarlo Berardi — Roteiro: Alfredo Castelli - Desenhos: Giovanni Cianti. Publicada originalmente no Brasil em Março de 1981/Editora Vecchi
Arte: Giovanni Cianti
“O Magnífico Pistoleiro” paira sobre o misticismo da história de um dos mais lendários personagens reais do velho oeste — Wild Bill Hickok. A trama não revela a lenda em si, mas, o homem que carrega o carma do próprio mito, um sujeito cansado do fardo de ser um profissional imbatível, à margem da fama que o assombra. A caminho de Helena, no Montana, e utilizando o nome de Charles Utter, o pistoleiro acaba encontrando Ken Parker, os dois rumam a destinos semelhantes, e com isso, tornam-se confidentes e companheiros de viagem. Logo depois, junta-se à dupla de cavaleiros Sidney Barnett, um bount killer à procura de seus 15 minutos de fama. Utter/Wild Bill, está perdendo a visão, e enquanto não ouve o veredicto final de um famoso oftalmologista, busca compensação numa audição aguçada pela adversidade, espécie de ‘superpoder’ que parece equalizar sua propínqua cegueira.

Arte: Giovanni Cianti
Ao conhecerem-se, as conversas entre Ken e Wild Bill, quase sempre à beira de uma fogueira, e mediante as circunstâncias em que estão envolvidos, aos poucos, o pistoleiro revela sua verdadeira identidade, como também as mazelas atreladas à persona de matador profissional. Depois de “A Rainha do Missouri” Giovanni Cianti retorna inspirado ao comando da pena em "O Magnífico Pistoleiro". O maneirismo de reprisar rostos famosos do cinema volta à baila nas construções visuais do desenhista. Ken Parker nunca esteve tão próximo a Robert Redford, assim como Syd Barnett é a cara de Paul Newman; a imagem do oftalmologista se aproxima de Henry Fonda, e um perseguidor de Wild Bill traz um tapa-olho, igual John Wayne em "True Grit" (1969).  

Arte: Giovanni Cianti
Entre os recursos narrativo/visuais de Cianti, destaque para os movimentos de câmera cinematográficos, detentores de preciosismos impressionantes — ou exatamente o contrário, traços aparentemente displicentes — à exemplo de como, por exemplo o vento, a natureza e algumas ações são retratadas, com simples rabiscos. Essa mescla entre aprumo técnico e a leveza do esboço gera um equilíbrio muito difícil de ser equalizado, sujeito a ser confundido com certa incoerência estética. Talvez por escolhas inusitadas como as descritas acima, Giovanni Ciant está longe de ser um dos desenhistas preferidos da série (o editor deste texto não concorda, mas relembro ao leitor que os reviews do Ken Parker Blog tratam-se de resenhas coletivas, por isso, sempre procuramos condensar o pensamento coletivo do que foi debatido no grupo). 

Arte: Giovanni Cianti
Cianti faz analogias a progressiva cegueira de Wild Bill associando-a ao período noturno. Já a esperança de recuperar a visão está pareada à luminosidade do dia, percutindo essa possível redenção ao final do percurso, em Helena, última cartada em busca de alguma normalidade. O alvo definido pelo cano do revólver que posiciona e dispara (tomando por base a página 77 da edição da editora Vecchi), com a vítima sendo alvejada por um tiro, é digna dos grandes westerns. E se pensarmos em epílogos ao estilo do Velho Oeste, — a perceptiva ambígua do clímax — o duelo entre Wild Bill e Sidney Barnett acelera os batimentos cardíacos do leitor, quando baloiçados à deriva de pontos de vista distintos, chegamos até a surpresa do confronto final.   
   
Arte: Giovanni Cianti
Detalhe: há um deslize na onomatopeia do barulho da arma de Ken na página 102. Vale á lembrança de que o disparo do rifle Kentucky é configurado como CRACK e não BANG! Os deflatores de Cianti não perdoam. Coloque na conta de sua já citada incoerência estética. 

Giarcarlo Berardi se detém ao lado humano da lenda em "O Magnífico Pistoleiro", quase sempre a recriminar estruturas sociais discriminatórias que forjam personalidades vingativas, afora o sofrimento gerado por essa escolha ou o mero alinhamento ao destino de cada um. Desse modo,  em tão poucas páginas (as vezes só uma), o roteirista constrói fascinantes personagens, incluindo figuras reais. Afora pré-julgamentos, "O Magnífico Pistoleiro" nos leva a concluir que todos não passamos da soma do meio ao qual estamos inseridos. Destarte, o livre arbítrio de cada um ainda é o agente definidor desse destino.

Arte: Giovanni Cianti
Sobre a suposta mão do jogo de pôquer utilizada por Wild Bill em sua derradeira partida (dois ases negros, dois oito negros e um valete de paus), vale lembrar que na ausência de fatos concretos, muitas vezes a história oral é aceita como prova documental, assomada à necessidade de como são forjadas diversas mitologias. Afinal, — "quando a lenda é maior que a realidade, publica-se a lenda”, não é mesmo? A paráfrase a fala de Ransom Stoddard (James Stewart) em “O Homem que Matou o Facínora” (1962), clássico de John Ford, nos leva a outro bordão, este do escritor Charles Bukowski — "Ficção é a vida melhorada". Por isso todos nós lemos (relemos) e nos deliciamos com as histórias de Ken Parker. 

Próximo episódio: "Lar Doce Lar"

Arte: Giovanni Cianti

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