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| Arte: Ivo Milazzo |
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.
Review — Ken Parker "Direito e Avesso" (Vecchi /Tendência). Argumento/roteiro: Giancarlo Berardi — Desenhos: Ivo Milazzo. Publicada originalmente no Brasil em Outubro de 1981/Editora Vecchi
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| Arte: Ivo Milazzo |
Depois de uma temporada no Canadá, Ken Parker está de volta aos Estados Unidos. Em Helena, no Montana, ele resolve prestigiar um evento artístico no McDaniels's New Theatre. Assim, o 'azarado' guia acaba por presenciar um inusitado crime num dos camarotes da casa de espetáculos. E, no calor do momento, é acusado de ser o autor de delito. Perseguido pela polícia e pelos populares, Ken se refugia na coxia do teatro, protegido por uma das atrizes/dançarinas num dos camarins. Após despistar seus perseguidores, Ken é revelado à verdadeira identidade de sua protetora, na verdade Junius Foy, um transsexual que atua como coreógrafo e dançarina. Com a ajuda do Junius, Ken Parker irá investigar o incidente na tentativa de descobrir os verdadeiros culpados pelo assassinato de Leslie Cannon, nome do homem vitimado no McDaniel's New Theatre.
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| Arte: Ivo Milazzo |
O início da trama nos relembra uma representação teatral ao estilo do que Francis Ford Copolla fez em "O Poderoso Chefão II" (1974), com atores imigrantes destilando o humor napolitano, com referência inclusive às expressões italianas como o bordão gestual da mão com os dedos fechados em frente ao rosto. A narrativa teatral leva inicialmente o leitor a acreditar que o acirrado debate da dupla faz parte da história de "Direito e Avesso", para depois perceber que Giancarlo Berardi na verdade nos leva para o paralelismo do esquete teatral.
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| Arte: Ivo Milazzo |
E esse preâmbulo no McDaniels's New Theatre é apoteótico em recortes e situações — um casal transa num dos camarotes; uma senhora tapa os olhos do marido para que ele não veja dançarinas levantarem suas saias; um divertido maestro rege a orquestra; as reações da plateia envelopadas com descontração e humor. A espetacular sucessão de acontecimentos nos leva até o instante em que Ken Parker testemunha o assassinato. Então, a narrativa/trilha sonora segue continuada pela partitura do compositor erudito alemão Jacques Offenbach, responsável por nos fornecer o tema musical oficial do cancan, até que as notas escasseiam e avisam o leitor que a confusão no teatro acaba de interromper o espetáculo. A sequência de 26 páginas (tomando por base a edição da Editora Vecchi) que nos leva até o último quadro da página 31, quando Junius revela sua identidade a um atônito Ken Parker, é simplesmente um dos melhores momentos de toda a série, com destaque para o efeito surpresa desse clímax inicial.
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| Arte: Ivo Milazzo |
A inovação dos temas debatidos por Berardi em Ken Parker continua sua progressão vanguardista, quando em pleno início dos anos 1980 (época em que foi publicado no Brasil e na Europa), o tema da transsexualidade é debatido com tamanha profundidade, sensibilidade e vigor (estamos no final dos anos 1880). O personagem de Junius Foy nos propõe uma aula de atuação — sagacidade, humor, inteligência, resiliência e graça, são algumas virtudes dessa mulher trans imersa em pleno universo do western. Apesar de um estranhamento inicial, Ken e Junius formam uma ótima dupla, travestindo-se de jornalistas/investigadores, autênticos intérpretes de um complô sherlockiano.
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| Arte: Ivo Milazzo |
Muitos dos diálogos versam sobre a opressão que as pessoas LGBT sofrem. A bandeira de mulher trans é hasteada em instantâneos pontuais da história, como na solução encontrada para distrair um brutamontes. Ken pergunta — "O que lhe disse para [distraí-lo/enganá-lo]? — "Coisas de mulher", Junius responde. A relação entre ambos aos poucos se afina, com aceitações e entendimentos que amplificam a personalidade humanista de Ken Parker, quando a amizade e o respeito mútuo pelas individualidades é constantemente amparado. Em tempo: mulher trans é uma pessoa que foi atribuída ao sexo ou gênero masculino ao nascer que possui uma identidade de gênero feminina.
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| Arte: Ivo Milazzo |
E quando retornamos ao tema principal da investigação, a morte de Leslie Cannon, conspirata berardiana com ingredientes dignos de um Arthur Conan Doyle. O ritmo dos acontecimentos nos conduz a uma série de surpresas, e assim, da primeira a última página, "Direito e Avesso" é repleto de inversões, distante dos corriqueiros clichês do gênero. Ao leitor iniciante, poderíamos dizer — seja bem-vindo ao fascinante mundo de Ken Parker, único personagem a nos proporcionar uma história desse naipe numa HQ, uma ousadia!








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