terça-feira, 8 de setembro de 2020

KP#36 Direito e Avesso

Arte: Ivo Milazzo
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.

Review — Ken Parker "Direito e Avesso" (Vecchi /Tendência). Argumento/roteiro: Giancarlo Berardi — Desenhos:  Ivo Milazzo. Publicada originalmente no Brasil em Outubro de 1981/Editora Vecchi
Arte: Ivo Milazzo
Depois de uma temporada no Canadá, Ken Parker está de volta aos Estados Unidos. Em Helena, no Montana, ele resolve prestigiar um evento artístico no McDaniels's New Theatre. Assim, o 'azarado' guia acaba por presenciar um inusitado crime num dos camarotes da casa de espetáculos. E, no calor do momento, é acusado de ser o autor de delito. Perseguido pela polícia e pelos populares, Ken se refugia na coxia do teatro, protegido por uma das atrizes/dançarinas num dos camarins. Após despistar seus perseguidores, Ken é revelado à verdadeira identidade de sua protetora, na verdade Junius Foy, um transsexual que atua como coreógrafo e dançarina. Com a ajuda do Junius, Ken Parker irá investigar o incidente na tentativa de descobrir os verdadeiros culpados pelo assassinato de Leslie Cannon, nome do homem vitimado no McDaniel's New Theatre.    

Arte: Ivo Milazzo
O início da trama nos relembra uma representação teatral ao estilo do que Francis Ford Copolla fez em "O Poderoso Chefão II" (1974), com atores imigrantes destilando o humor napolitano, com referência inclusive às expressões italianas como o bordão gestual da mão com os dedos fechados em frente ao rosto. A narrativa teatral leva inicialmente o leitor a acreditar que o acirrado debate da dupla faz parte da história de "Direito e Avesso", para depois perceber que Giancarlo Berardi na verdade nos leva para o paralelismo do esquete teatral.  

Arte: Ivo Milazzo
E esse preâmbulo no McDaniels's New Theatre é apoteótico em recortes e situações — um casal transa num dos camarotes; uma senhora tapa os olhos do marido para que ele não veja dançarinas levantarem suas saias; um divertido maestro rege a orquestra; as reações da plateia envelopadas com descontração e humor. A espetacular sucessão de acontecimentos nos leva até o instante em que Ken Parker testemunha o assassinato. Então, a narrativa/trilha sonora segue continuada pela partitura do compositor erudito alemão Jacques Offenbach, responsável por nos fornecer o tema musical oficial do cancan, até que as notas escasseiam e avisam o leitor que a confusão no teatro acaba de interromper o espetáculo. A sequência de 26 páginas (tomando por base a edição da Editora Vecchi) que nos leva até o último quadro da página 31, quando Junius revela sua identidade a um atônito Ken Parker, é simplesmente um dos melhores momentos de toda a série, com destaque para o efeito surpresa desse clímax inicial. 

Arte: Ivo Milazzo
A inovação dos temas debatidos por Berardi em Ken Parker continua sua progressão vanguardista, quando em pleno início dos anos 1980 (época em que foi publicado no Brasil e na Europa), o tema da transsexualidade é debatido com tamanha profundidade, sensibilidade e vigor (estamos no final dos anos 1880). O personagem de Junius Foy nos propõe uma aula de atuação — sagacidade, humor, inteligência, resiliência e graça, são algumas virtudes dessa mulher trans imersa em pleno universo do western. Apesar de um estranhamento inicial, Ken e Junius formam uma ótima dupla, travestindo-se de jornalistas/investigadores, autênticos intérpretes de um complô sherlockiano.  

Arte: Ivo Milazzo
Muitos dos diálogos versam sobre a opressão que as pessoas LGBT sofrem. A bandeira de mulher trans é hasteada em instantâneos pontuais da história, como na solução encontrada para distrair um brutamontes. Ken pergunta — "O que lhe disse para [distraí-lo/enganá-lo]? — "Coisas de mulher", Junius responde. A relação entre ambos aos poucos se afina, com aceitações e entendimentos que amplificam a personalidade humanista de Ken Parker, quando a amizade e o respeito mútuo pelas individualidades é constantemente amparado. Em tempo: mulher trans é uma pessoa que foi atribuída ao sexo ou gênero masculino ao nascer que possui uma identidade de gênero feminina.

Arte: Ivo Milazzo
E quando retornamos ao tema principal da investigação, a morte de Leslie Cannon, conspirata berardiana com ingredientes dignos de um Arthur Conan Doyle. O ritmo dos acontecimentos nos conduz a uma série de surpresas, e assim, da primeira a última página, "Direito e Avesso" é repleto de inversões, distante dos corriqueiros clichês do gênero. Ao leitor iniciante, poderíamos dizer  — seja bem-vindo ao fascinante mundo de Ken Parker, único personagem a nos proporcionar uma história desse naipe numa HQ, uma ousadia!    

Próximo episódio: "Crônica".
Arte: Ivo Milazzo

   

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