quinta-feira, 10 de setembro de 2020

KP#37 Crônica

Arte: Ivo Milazzo
A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.

Confira a trilha sonora de Ken Parker
Review — Ken Parker "Crônica" (Vecchi /Tendência). Argumento: Giancarlo Berardi / Roteiro: Maurizio Mantero — Desenhos:  Carlo Ambrosini. Publicada originalmente no Brasil em Novembro de 1981/Editora Vecchi
Arte: Carlo Ambrosini
Hospedado no Parrish Hotel em Butte, no Montana, Ken Parker conhece George Maledon, um funcionário federal que precisa de escolta até Boise City, no Idaho. Lá Maledon irá atuar nas tratativas finais do enforcamento do jovem Vicent Hagle, integrante de um bando de delinquentes que roubou uma agência da Wells Fargo. Os meandros da jornada de Ken e Maledon até o Idaho serão desdobrados aos poucos, no tempo presente durante o protecionismo de Ken em resguardar a integridade do homem que o contratou, e enquanto a leitura de jornais remonta a história do roubo, como também revela os acontecimentos que levam até o julgamento em Boise City. Dessa forma, as peças do enredo são reveladas gradativamente, cadenciadas pelo ritmo do está noticiado nos periódicos da época. 

Arte: Carlo Ambrosini
A sequência narrativa das páginas 38 e 39 (tomando por base a edição da Editora Vecchi) dita o tom truculento do bando — Joan Reynolds é abusada pela gangue dos Hagen, uma das estratégias de intimidar familiares dos jurados a votarem pela absolvição do acusado. A sensação de abandono, o vazio e o desespero pós estupro, utiliza um recurso gráfico pouco usual em Ken Parker, com clímax no apagado último quadro página 39. Na verdade, esse 'mostrar' sem exibir detalhadamente nos entrega inconclusivas sensações de pesar. Afinal, Joan realmente foi estuprada ou apenas sofreu uma ameça extrema? Intimidar, eliminar testemunhas, envenenar animais dos nominados ao corpo de jurados, e o própria intimidação à integridade física de George Maledon estão constantemente representados em "Crônica"

Arte: Carlo Ambrosini
Outra aspecto abordado está na espetaculização do enforcamento, com destaque para a cobertura pré-programada do jornal local, entregando aos seis leitores exatamente aquilo que eles querem receber — sangue! George Maledon é um personagem enigmático — culto, corajoso, sardônico, ótimo atirador e um perficiente instrumentista, como podemos ver na página 74, quando abre o estojo e saca um violino para executar (com o perdão do trocadilho) uma das peças mais sinistras do compositor italiano Nicolò Paganini — "Caprice no.6 in G minor". 

Ouça, pela versão da violinista japonesa Mayuko Kamio. 

 
Contudo, um dos temas mais importantes discutidos em "Crônica" é a pena de morte. As argumentações e o constante debate entre George Maledon e Ken Parker versam sobre permanentes argumentos filosóficos e sociais. As últimas frases de Ken explicitam seu ponto de vista  "A justiça devia ser algo doce da vingança (...) Meia cidade marcou um encontro para matar um rapaz de pés e mãos amarrados. Quem tem estômago para fazer uma coisa desse tipo, não tem o direito de julgar ninguém, nem mesmo um assassino". Em outro momento, Maledon contradiz: "E quantos inocentes seriam mortos pelas ruas, se não pusermos um frio na violência? (...) Eu sou a legítima defesa das pessoas honestas".  

Arte: Carlo Ambrosini
A participação de Carlo Ambrosini demarca um de suas mais significantes participações na série, com destaque para a borda escura que emoldura cenas em flashback, construída com intencionais imprecisões, recado a nos lembrar de que nem sempre aquilo que está escrito realmente representa a verdade absoluta. Afinal — a vida real não é feita de linhas retas. Minúcias ilustrativas como o movimento da chuva, os reflexos projetados nas poças e nítidas onomatopeias utilizadas como bengalas do som, apenas reforçam os traços emotivos da história. A cena do enforcamento captura movimentos de câmera surpreendentes — como a posição dos olhos do carrasco no momento da execução (ou a visão oposta de um espectador oculto), assim como a projeção de um olhar superior sobre o evento, perspectivas cinematográficas de uma grande ilustrador.  


Arte: Carlo Ambrosini
"Crônica" evoca o onipresente medo da morte, o desespero com a velocidade ao qual a areia escorre rapidamente pela ampulheta, isso quando a visionamos pela obscura lupa de um condenado à morte.  A incerteza das coisas humanas e a marca da crônica jornalística estão presentes em diversos momentos da narrativa. As últimas páginas intercalam cenas do enforcamento e de Ken Parker partindo na direção oposta ao evento. A edição do Boise Mirror Weekly flutua pelo últimos três quadros, uma espécie de estranho recado da edição precocemente orquestrada pela imprensa local. 

Próximo episódio: "O Poeta".

Arte: Carlo Ambrosini

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