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Arte: Ivo Milazzo
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A reunião virtual de fãs de Ken Parker, fumetti/HQ italiano que é item de devoção do Diário Kenparkerniano, grupo formado no WhatsApp que se organizou com a intenção de cronologicamente reler e debater todos os episódios da epopeia western, também é relatado aqui no Ken Parker Blog.
Confira a trilha sonora de Ken Parker
— Ken Parker "Adah" (Vecchi /Tendência). Argumento/roteiro: Giancarlo Berardi — Desenhos: Ivo Milazzo. Publicada originalmente no Brasil em Agosto de 1982/Editora Vecchi
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Arte; Ivo Milazzo
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"Adah" relata a história de uma escrava nascida no Sul dos Estados Unidos — de sua infância numa fazenda onde morava com a família, até sua partida após a Guerra Civil rumo à cidade grande e à vida adulta. O resultado de nossa imersão nessa trama nos leva até um dos mais intensos e realistas libelos raciais já escritos pelos quadrinhos mundiais.
Em “Adah”, o leitor se vê comovido pela inocência da personagem, isso mesmo após seu amadurecimento, ao qual gradativamente podemos acompanhar. Essa característica seria talvez a inocência do próprio Giarcarlo Berardi? Se olharmos pela lupa da história, Abraham Lincoln não possuía nenhuma intenção de acabar com a escravidão, pelo contrário — quando soube que o Deep South havia rachado sua unidade, o Presidente acreditava que se tratava de um blefe — ou de um auto clamor — como se o Sul apenas almejasse mais concessões. Hoje sabemos, não se tratava de um blefe. Lincoln então tenta dialogar, e assim, promessas são feitas — uma delas passa pela implementação da Lei do Escravo Fugitivo. Havia até mesmo uma proposta governamental para garantir que a escravidão jamais fosse abolida nos Estados Unidos, principalmente em locais onde ela se perpetuava com a conivência da sociedade.
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A chegada da Guerra Civil em “Adah” revela a própria ingenuidade dos escravos sulistas diante de seus ‘libertadores’. O primeiro choque é justamente quando Adah se encontra frente a frente com o exército da união — monstros não escolhem lados. É quando a ingênua Adah se dá conta de que nem mesmo o futuro reservado à ela no lar de sua infância e juventude, pode abduzir essa inocência. A mesma pureza que será desvelada para um par de olhos aveludados, um homem disposto a persuadi-la de que ainda há muito pelo que lutar.
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Como se reconstruir? Como promover esse renascimento? Como juntar os cacos de uma alma dilacerada? Esses são alguns dos temas de “Adah”, um dos mais impressionantes episódios de Ken Parker. Desde as primeiras páginas, o roteirista nos apresenta um relato instigante, altamente sensível dessa jovem que em 22 de julho de 1850 coloca pela ‘primeira vez seu traseiro no mundo’. E assim, seguimos os passos da pequena Adah, suas descobertas e peculiar compreensão da vida. E como ela adentramos na intimidade do convívio familiar, seus mistérios, mazelas e prazeres cotidianos, do entendimento das coisas até o adentrarmos pelo pôr do sol da sua infância, rumo ao alvorecer da vida adulta.
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Se a inocência da personagem perpassa toda a obra, é nela que também percebemos sua força. Desde cedo Adah remói suas ausências — seja pela perda de pessoas próximas (sentimento consolidado no lugar do pai que nunca pode conviver), mas também no sentimento de perdê-lo, mesmo que à distância. A protagonista dessa história não é o personagem título da HQ, — um protagonismo que é reivindicado apenas na parte final da história, como prova de sua força como ser humano. Já o coadjuvante Ken Parker aparece em “Adah” quando faltam apenas 23 páginas para a conclusão da trama.
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E por incrível que pareça, até então, Ken não faz falta. Apenas somos tomados pela sensação de expectativa dessa primeira aparição no momento em que ele surge em seu cavalo na página 88 (tomando por base a edição da Editora Vecchi). E se anos depois, Berardi usaria Julia Kendall para nos colocar dentro de seu diário íntimo, em “Adah” essa forma narrativa surge como artifício preambular de um método do roteirista, pois — continuamos imersos na intimidade dos escritos de Adah, é ela que nos narra as visões pessoais de Ken Parker, em primeira pessoa. “A liberdade é um bem precioso que deve ser conquistado dia-a-dia", Ken alerta Adah. Inclusive, essa voz confessional de Ken Parker poucas vezes nos foi revelada ao longo de sua saga. Uma das boas descrições nessa rara intenção está na página 106, quando a jovem faz um dos mais eficientes resumos biográficos do personagem — “[Ele] tinha um modo de amar doce, ao qual respondi com selvagem desesperação. Procurava o triunfo da existência como um antídoto aos seus medos. Não sabia ainda que o ato supremo da vida, na anulação dos sentidos, traz consigo o sopro da morte”. Assim, choramos e rimos com Adah, como amigos íntimos de seus pensamentos.
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Ao dedicarem uma história inteira para falar das origens do racismo em terras estadunidenses, suas ramificações e consequências, Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo demarcam seu pioneirismo nas HQs. Poucos anos antes, em 1977, "Raízes" (no original em inglês Roots), uma premiada série de televisão baseada no livro "Dark Roots" (1976), de Alex Haley, pulverizou nos dois lados do Atlântico uma influência nesse recorte da história, algo que pode ter influenciado os criadores de KP. Porém, também é necessário lembrar que "Adah" antecipou em 3 anos "A Cor Púrpura" (1985), drama de Steven Spielberg, com roteiro de Menno Meyjes baseado no romance de Alice Walker, um dos grandes sucesso do cinema mundial na década de 1980. Chega a ser 'lugar comum' afirmar que "Adah" resultaria num filme de altíssimo naipe.
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Arte: Ivo Milazzo
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“Adah" permanece tão atual, que passadas cerca de quatro décadas de sua publicação original na Itália, estamos imersos em temas extremamente presentes em nosso cotidiano. Uma obra humanista, poética, com a arte se apropriando com legitimidade da libertária bandeira da igualdade racial. Em raras oportunidades, tanto o cinema, a literatura, o jazz e seja lá qual outra expressão artística seja invocada nesse texto — poucas vezes uma história racial foi contada de forma tão magistral. Certamente “Strange Fruit”, uma música que viceja incólume na voz de Billie Holiday faça sombra ao universo explorado em
“Adah”.
E falando em música, é nessa edição que o blues surge triunfal nas páginas de Ken Parker. Ao abordar um dos flagelos mais indigestos da história norte-americana — a escravidão, nada mais justo que o resgate do blues, autêntica insígnia de um dos mais importantes legados artísticos do negro afro-americano. "I'm Troubled in Mind", triste lamento da página 7, é uma perfeita escolha para enquadrar essa moldura. "Death No Have No Mercy" é o outro portfólio da desolação causada pelos abusos da escravização no Sul — "A morte não é piedosa nesta terra / A morte não tira férias nesta terra".
Após inúmeras pesquisas, seguramente podemos afirmar que número musical representado por uma pequena jug band (pioneiras formações ancestrais as big bands, muitas vezes utilizando instrumentos caseiros/adaptados), com destaque para um pianista (página 64), possivelmente seja uma invenção de Berardi. Há enxertos e uma tentativa de soar coloquial num inglês 'sotaqueado', uma busca pela linguagem dos negros daquele período. De todo o modo, o roteirista novamente acerta na mosca em suas escolhas. Ouça os dois temas dessas representações.
Após muitas pesquisas, seguramente podemos afirmar que número musical representado por uma pequena jug band (pioneiras formações ancestrais as big bands, grupos musicais que utilizavam instrumentos caseiros/adaptados), com destaque para um pianista (página 64), possivelmente seja outra invenção de Berardi. Há enxertos folclóricos e uma tentativa de soar coloquial num inglês 'sotaqueado', uma busca pela linguagem dos negros daquele período.
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Arte: Ivo Milazzo
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Uma curiosidade: na simples comparação de impressão entre as edições da Mondadori/Vecchi e Tapejara/Vecchi, percebemos que a parte substancial dos desenhos de Ivo Milazzo fica perdido na primeva impressão. Na versão de
"Adah" pela Editora Mondadori a arte do desenhista se amplia como uma epifania ilustrativa — é quando descobrimos o meio-tom, o cinza inexistente na época da primeira edição publicada na HQ da Vecchi. Não se trata de falha, omissão ou má qualidade de impressão, mas de uma técnica de reprodução que só surgiria alguns anos após ao lançamento de "Adah" em 1982.
"Adah" é a prova material de que os quadrinhos mundiais podem nos oferecer conteúdo de extrema qualidade, com rara sensibilidade e concatenação histórica, um roteiro primoroso, uma história que nunca deixará de pulsar forte no coração dos fãs de Ken Parker.
Próximo espisódio: "A Verdade"
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